MUDANÇA EM PROJETO DE EDUCAÇÃO DEIXA CERCA DE 130 MIL ALUNOS DO RS SEM AULAS NO TURNO INVERSO

Números mostram perda de vagas no Mais Educação no RS (Foto: Reprodução/RBS TV)

Vagas do Mais Educação, do governo federal, caíram de mais de 184 mil no ano passado para pouco mais de 54 mil este ano. Escolas com índices mais elevados do Ideb acabaram afetadas.

A mudança nos critérios de adesão ao projeto Mais Educação, do governo federal, atingiu escolas do Rio Grande do Sul. Justamente as que tiveram as melhores notas no Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb) vão perder o turno inverso, o que corresponde a quase 130 mil alunos. As vagas caíram de mais de 184 mil no ano passado para pouco mais de 54 mil este ano. 

O Mais Educação existe no estado desde 2010. No turno contrário ao das aulas, os estudantes têm a oportunidade de fazer atividades como reforço de português, matemática, atividades de canto, xadrez e cineclube. 

As cidades mais prejudicadas com a mudança foram Canoas, Novo Hamburgo, Viamão e Gravataí. Só nesses quatro municípios da Região Metropolitana, quase 20 mil alunos vão perder a chance de se desenvolver mais.
 
No ano passado, Gravataí teve o melhor desempenho da história do Ideb: 5,2. 

Os critérios do Ministério da Educação para o programa mudaram este ano. Escolas com melhor desempenho no Ideb não vão mais receber o recurso. As notas têm que ficar abaixo de 4,4 nos anos iniciais e 3 nos anos finais. Além disso, o Bolsa Família agora faz parte dos critérios: 50% dos alunos precisam estar inscritos no programa.
 
Na Escola Carlos Bina, o Ideb passou da faixa por pouco - o dos anos iniciais foi 4,7 e o dos anos finais ficou em 3,6. Só que a escola também não se encaixa em outro critério: a maioria dos alunos não faz parte do Bolsa Família. 

"No fim de 2017 a gente teve a notícia de que não seríamos mais uma escola apta a receber o projeto em 2018", diz a diretora da escola, Márcia Cristiane Soares. 

"Minha filha tem bastante dificuldade em português e matemática, entrou no projeto ano passado, e para mim foi uma boa notícia, porque depois que ela entrou no projeto, começou a se desenvolver melhor", dia Juliana Francisco, mãe de aluno. 

Os alunos da escola também lamentam a mudança. "Eu estou muito triste pelo Mais Educação ter acabado, eu acho que era um projeto muito bom que melhorava o desempenho dos alunos", diz Alexandre Rodrigues. 

Em outra escola municipal, que fica no bairro Conceição, 80 alunos tinham letramento, matemática, futebol, desenho e dança. 

"Aqui na escola nós temos muitas crianças de vulnerabilidade, que passam a maior parte do tempo na rua, não têm o que comer, não têm quem os proteja, e aqui elas tinham toda a assistência. Agora, com essa perda, elas vã sentir muita falta. É uma lástima, porque com o Mais Educação a gente vê resultado, a gente vê que a criança tem dificuldade. Ela tem auxílio, e o resultado vai aparecer mais adiante. Com essa retirada, a escola vai perder muito, os alunos vão perder muito", lamenta a diretora Adriana Frosi.
 
Fonte: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/mudanca-em-projeto-de-educacao-deixa-cerca-de-130-mil-alunos-do-rs-sem-aulas-no-turno-inverso.ghtml
Acesso: 21 fev. 2018.
 

MAIS CRECHES, MAIS SUCESSO PARA AS MÃES

Creches, maternidade e trabalho

Estudo analisa políticas laborais para apoiar quem tem filhos e conclui que elas beneficiam tanto as profissionais quanto as empresas.

Quando um bebê nasce e a mãe precisa voltar à labuta, com quem deixá-lo? Se ela pode contar com a ajuda de parentes, contratar uma babá ou pagar por uma creche, a resposta se torna fácil. Mas nem sempre essas opções estão disponíveis, cabem no bolso da mulher ou são compatíveis com a jornada laboral. Por isso, muitas mulheres acabam desistindo de trabalhar antes mesmo da licença-maternidade.

Isso afeta especialmente as mulheres mais pobres, que deixam de ter uma fonte de renda e privam seus filhos de acesso a uma educação de qualidade na primeira infância. "Sem esse benefício, essas crianças podem ficar presas em um ciclo intergeracional de pobreza, do qual é praticamente impossível se libertar", diz um estudo recente da International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial para o desenvolvimento do setor privado.

A publicação inclui bons exemplos de empresas de vários setores  alguns com mais, outros com menos participação feminina  que oferecem diferentes tipos de apoio às mães e aos pais e conclui: ao investir em políticas para esses trabalhadores, todos ganham, começando com as mulheres, que podem conquistar mais e melhores oportunidades no mercado global.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, a participação do trabalho das mulheres ainda é cerca de 30 pontos percentuais menor que a dos homens. "O acesso ao cuidado infantil subsidiado pode ter um impacto positivo significativo nas taxas de emprego e no número de horas que as mulheres trabalham", acrescenta o relatório, com base em evidências dos países da América Latina e do Caribe e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Menos erros, mais produtividade

O relatório combina exemplos de empresas de todo o mundo com uma análise aprofundada de 10 corporações em oito países, incluindo o Brasil, o único latino-americano na amostra. Alguns dos benefícios oferecidos por eles são, dentre outros:

• Creches no trabalho;

• Parcerias com creches privadas;

• Áreas onde as mães possam amamentar;

Licença-paternidade e outros incentivos para que os homens desempenhem um papel mais ativo na educação de seus filhos, uma vez que, na comparação com os homens, as mulheres globalmente passam três vezes mais horas prestando cuidados não remunerados;

• Horários flexíveis para mães e pais;

• Colônias de férias.

Depois de adotar uma combinação de benefícios desse tipo (para mulheres e homens), um banco japonês participante da pesquisa comemora o fato de 90% das funcionárias continuarem trabalhando ao voltar da licença-maternidade. Antes disso, elas pediam demissão sem nem sequer ter dado à luz.
No Brasil, onde se analisou uma indústria de alimentos, a pesquisa descobriu que as mulheres cujos filhos estão na creche  uma instituição privada parceira da empresa  cometem menos erros e não faltam frequentemente, o que melhora a produtividade.

"Você pode vê-lo em relatórios de saúde e segurança: as pessoas estão mais calmas se eles sabem que seus filhos estão seguros", explicou o gerente da fábrica à equipe que fez o relatório. Além de estarem mais concentrados, as mulheres são mais propensas a permanecer em empresas que oferecem esse tipo de benefício.

Ao manter essas profissionais na equipe, as empresas diminuem a rotatividade, o que afeta a produção e implica custos entre 5,8% e 213% do salário de um trabalhador (segundo dados de 2012).
O aumento da diversidade e a maior ascensão das mulheres a cargos de chefia é uma vantagem óbvia para elas e não tão explícita  mas igualmente interessante  para os empregadores. Por quê? Pesquisas em países em desenvolvimento, emergentes e desenvolvidos mostram que as empresas com maior diversidade de gênero na liderança superam financeiramente os competidores, pois tendem a inovar mais na tomada de decisões, por exemplo.

Muito além do cumprimento da lei

Em alguns países, como a Jordânia, proporcionar cuidados infantis nas áreas rurais foi crucial para convencer as mulheres com pouca experiência de emprego remunerado a buscar trabalho no setor industrial. Em outras empresas de países como África do Sul, Índia, Estados Unidos e Alemanha, mencionadas no relatório, não basta oferecer esses serviços  porque, sem eles, as companhias não seriam competitivas em seu setor ou região , mas fazê-lo de forma que as diferencie da concorrência.

As políticas para mães e pais também podem, de acordo com o estudo, ajudar as empresas a acessar novos mercados e compradores - já que alguns começam a preferir empresas favoráveis às mulheres - ou conquistar novas fontes de financiamento e investimento. Cumprir a legislação nacional sobre o assunto é muitas vezes um requisito básico para manter relações comerciais com os principais compradores internacionais. Mas ir além disso permite às companhias se consolidar como parceiras comerciais confiáveis e de alta qualidade.

Além de discutir as vantagens dos programas de suporte para mães e pais, o relatório apresenta várias recomendações para empresas que desejam implementá-los ou aprimorá-los.

Entre elas, analisar o tamanho da demanda e o momento em que é mais necessário oferecer esses benefícios; verificar as lacunas nos serviços existentes e, por último, mas não menos importante: como o recrutamento, a produtividade, os erros, os acidentes, o volume de negócios, o desempenho, o atraso e a motivação são afetados? As respostas ajudarão a enfrentar efetivamente um dos desafios mais importantes para casais e empresas de todo o mundo.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/05/economia/1517843536_032667.html
Acesso em: 14 fev. 2018.

PRÁTICA DE MINDFULNESS NO AMBIENTE ESCOLAR PODE TRAZER BENEFÍCIOS A ALUNOS E PROFESSORES




O uso das práticas de atenção plena (mindfulness) nos ambientes educacionais tem se tornado cada vez mais frequente em todo o mundo. Sabe-se que elas ajudam os estudantes a aprimorar a atenção em classe, a regular melhor suas emoções e a adquirir maior habilidade nas inter-relações sociais. Mas, para entendermos esses efeitos, precisamos saber primeiro o que é atenção plena e como ela atua, gerando tantas consequências desejáveis para estudantes e educadores.

Mindfulness é uma palavra da língua inglesa que não tem um equivalente exato em português. O adjetivo mindful se refere a quem está atento ou consciente de alguma coisa, e mindfulness seria assim o estado de estar atento, de estar consciente. Em termos operacionais, mindfulness tem sido definida como a consciência do momento presente, quando fixamos nele nossa atenção voluntária, suspendendo qualquer julgamento sobre o que aparece em nosso fluxo de consciência e deixando fluir as experiências ao longo do tempo. Ou seja, como o momento presente é fugaz, mantemos a atenção plena na sequência de momentos presentes, da maneira como eles se apresentam à nossa consciência.

As práticas de mindfulness são um tipo de meditação e isso requer algumas considerações. O termo “meditação” designa um grupo de técnicas utilizadas para treinar a atenção, com o intuito de cultivar vários estados mentais positivos. Existem muitos tipos de meditação e, embora usualmente a associemos com o budismo, ela tem sido utilizada ao longo dos séculos por várias tradições espirituais, como o hinduísmo, o taoismo, o judaísmo e mesmo o cristianismo. A meditação, no entanto, pode ser praticada em um contexto totalmente secular, sem nenhuma conotação religiosa.

Pesquisas científicas recentes têm demonstrado que a sua rotina produz modificações na estrutura e no funcionamento do cérebro que podem trazer benefícios para os indivíduos e também para o ambiente social.

Modificações no cérebro

Muita gente acredita que meditar é esforçar-se para deixar a “mente vazia”, totalmente sem pensamentos, o que é praticamente impossível. Na verdade, na meditação procura-se dirigir e manter o foco da atenção consciente em um objeto, que pode ser interno – como pensamentos, emoções e estados corporais – ou externo, como estímulos sonoros ou visuais. Ao mesmo tempo, é importante manter o estado de alerta (não sonolência) e o relaxamento corporal. O objeto da atenção pode ser variado, mas é muito frequente que ele seja a própria respiração. A atenção mantida na respiração traz o fluxo da consciência para o momento presente e dificulta a divagação mental, essa tendência natural que tem a nossa mente de devanear, lembrando-se ou fazendo planejamentos todo o tempo em que não estamos engajados em uma tarefa que exige esforço intelectual. A divagação mental é o principal obstáculo a ser contornado por quem está empenhado em meditar.

Muitos pesquisadores têm se interessado pelo estudo da meditação, principalmente nas duas últimas décadas, e conseguido demonstrar que ela produz modificações fisiológicas que se refletem na psicologia da cognição e no processamento emocional, constituindo um exemplo eloquente das influências recíprocas entre o corpo e a mente. Aqui é importante deixar claro que o que chamamos de mente – como o nosso fluxo de consciência – são processos que decorrem do funcionamento do cérebro. Não pode existir uma mente sem um cérebro em funcionamento; contudo, a atividade mental pode, por sua vez, modificar o próprio cérebro, numa interação bidirecional que só agora começamos a compreender de forma mais adequada.

Técnicas avançadas para a pesquisa em neurociência, como a ressonância magnética funcional, têm mostrado que várias estruturas cerebrais são modificadas pela prática da meditação. O córtex pré-frontal, a região cortical situada na parte mais anterior do cérebro, é uma delas. Outras regiões afetadas são, por exemplo, o cíngulo anterior, a ínsula e a amígdala cerebral. Geralmente, a meditação promove um aumento da espessura cortical, indicando que houve um acréscimo de prolongamentos das células nervosas e nas conexões sinápticas dessas regiões. Ocorrem também alterações nas vias que ligam algumas dessas estruturas a outros centros nervosos. Tudo isso modifica o funcionamento cerebral: algumas funções são facilitadas, enquanto outras são inibidas. Em outras palavras, o cérebro que medita se torna diferente na sua maneira de interagir com os estímulos, sejam eles internos ou ambientais.

A prática de mindfulness envolve treinar a atenção voluntária, portanto é de esperar que ocorra alteração na capacidade atencional da pessoa que medita. E isso é precisamente o que ocorre. O esforço em focar a atenção promove modificações nos circuitos que a sustentam e no córtex do cíngulo anterior, o que aumenta a habilidade de permanecer consciente do momento atual: a capacidade de estar realmente presente, e não perdido em divagações. Muitas pesquisas têm mostrado que a atenção executiva, que nos permite manter a concentração, inibindo estímulos e comportamentos distraidores, torna-se mais eficiente naqueles que meditam. Trata-se de uma forma de aprendizagem que ocorre por meio da neuroplasticidade, a capacidade que o cérebro tem de reorganizar-se constantemente. O efeito benéfico sobre a atenção pode ser observado já com poucos dias de prática meditativa. Como resultado, ocorre também aperfeiçoamento da memória operacional, o que pode levar, por exemplo, à melhora do desempenho escolar.

Redução do estresse

Outro efeito relevante da prática de mindfulness é uma modificação na reatividade emocional: as pessoas que meditam costumam ser menos tomadas por impulsos emocionais e, quando isso acontece, conseguem retornar à normalidade mais rapidamente. As pesquisas sugerem que isso decorre de um maior controle da região pré-frontal sobre a amígdala cerebral. Essa última estrutura é responsável por detectar situações com significado emocional e desencadear as respostas periféricas que caracterizam nossa resposta a essas situações. A meditação provoca alterações estruturais e funcionais na amígdala, diminuindo sua atividade. Por outro lado, o controle pré-frontal faz com que a regulação consciente tenha uma ação mais efetiva ou, em outras palavras, que os processos racionais intervenham no processamento emocional.

Nesse contexto, é interessante notar que a práti­ca de mindfulness tem um papel considerá­vel na redução do estresse e dos seus efeitos nocivos na saúde e no comportamento. Ao longo do processo evolutivo, nosso cérebro desenvolveu-se de forma a enfrentar situações de perigo, que mobilizam as emoções, iniciando em nosso corpo muitas respostas fisiológicas que o preparam para enfrentá-las. Por exemplo, o coração dispara, a pupila dilata-se, o sangue foge do intestino e da pele, dirigindo-se para os músculos e o cérebro. Essas são respostas desencadeadas por uma parte do sistema nervoso que se dirige aos nossos órgãos internos, que leva o nome de sistema nervoso simpático. Nessas situações, uma porção distinta do sistema nervoso visceral, o sistema parassimpático, é inibida (o parassimpático é utilizado em situações de calmaria, quando estamos, por exemplo, digerindo uma refeição). Uma resposta adicional, característica das situações de perigo, é a secreção de um hormônio da glândula suprarrenal, o cortisol, que tem ações que ajudam a preparar o organismo para enfrentar emergências. Essas respostas são vantajosas quando o indivíduo precisa livrar-se de uma ameaça passageira. Contudo, quando o estresse se torna muito frequente ou constante, as modificações fisiológicas que eram benéficas passam a ser um problema, pois agem promovendo efeitos nocivos. Podem ocorrer, por exemplo, distúrbios cardiocirculatórios, como hipertensão arterial, e psicológicos, como ansiedade e depressão.

A prática de mindfulness, observou-se, promove diminuição da atividade simpática e aumento da parassimpática. Os níveis do cortisol na circulação sanguínea são diminuídos e o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo, é estimulado, pois aumenta a concentração de anticorpos no sangue. Em síntese, a meditação provoca modificações fisiológicas que reduzem o estresse e protegem o organismo contra suas ações nocivas.



“Momento mindfulness” em uma sala de aula em Odenton, Maryland, nos Estados Unidos (Crédito: Amy Davis/ZUMA Press/Corbis/latinstock)

Diminuição da violência

Outro resultado da prática de mindfulness é um aumento da consciência corporal, a capacidade de perceber as sensações que ocorrem no próprio corpo. Provavelmente, isso decorre de alterações que a meditação provoca na ínsula, uma região cortical que recebe as informações corporais que têm um valor hedônico, ou seja, as sensações que são agradáveis ou desagradáveis. Na ínsula se tornam conscientes sensações dolorosas, mas ela também processa, por exemplo, as informações sensuais, decorrentes da atividade sexual.

A ínsula tem sua espessura aumentada pela atividade de mindfulness e torna-se mais ativa naqueles que meditam. O resultado é um aumento da capacidade de perceber prontamente e com clareza as respostas corporais desencadeadas pelas emoções, o que permite que possamos regulá-las de forma mais adequada.

As emoções são inevitáveis, elas acontecem e são essenciais no nosso cotidiano, mas é importante que saibamos identificá-las oportunamente para poder responder a elas de forma positiva nos diversos contextos sociais. Isso constitui o que chamamos de inteligência emocional.

A ínsula tem também um papel relevante no fenômeno da empatia: a habilidade de perceber as emoções alheias e se identificar com elas. A empatia é importante, por exemplo, porque pode levar à diminuição da agressividade e ter um efeito benéfico na regulação das interações sociais. Portanto, a prática de mindfulness, por suas ações nos circuitos nervosos envolvidos com as emoções, pode melhorar o ambiente social, contribuindo, por exemplo, para a diminuição da violência que se observa em alguns espaços escolares.

Melhora da autoestima

Outra característica decorrente da prática de mindfulness que merece ser referida é a modificação da autopercepção. Os meditadores, ao observarem o seu fluxo de consciência, notam que os conteúdos que passam pela mente – pensamentos, sentimentos e emoções – são transitórios e estão em permanente mudança e que não há necessidade de se sentir enredado por eles. Não há uma identificação automática com os conteúdos da consciência e ocorre um processo de distanciamento do “eu” tradicional. Isso permite uma autorrepresentação mais positiva, melhora da autoestima e maior aceitação de si mesmo, com aumento da sensação de bem-estar. Os pesquisadores acreditam que essas modificações são decorrentes da menor ativação do chamado “circuito cerebral padrão”, responsável pela divagação mental, pois esta é usualmente autorreferente e nos prende a uma autopercepção automática e acrítica.

Em síntese, pode-se dizer que a prática de atenção plena atua nas chamadas funções executivas do cérebro, promovendo um aumento da autorregulação por suas ações no controle da atenção, na regulação emocional e nos processos da autoconsciência. A autorregulação é a capacidade que nos permite atingir nossos objetivos da maneira mais adequada ao longo de toda a vida, e os dados disponíveis mostram que essa habilidade tem alta correlação com vários aspectos positivos como o desempenho escolar, a manutenção da saúde ou a boa escolha profissional e correlação negativa com problemas com o uso de drogas ou transgressões legais.

A capacidade de autorregulação é variável entre as pessoas, mas pode ser aprendida e, portanto, é desejável que se busque aprimorá-la por meio da educação. Na verdade, isso corresponde ao que chamamos de aprendizagem socioemocional: o desenvolvimento de competências como a autogestão, a autoconsciência, a consciência social, as habilidades relacionais e as tomadas de decisão conscientes. Essas competências são estimuladas pela meditação, e essa é uma razão muito convincente para que ela seja introduzida no processo educacional. Existem, em todo o mundo, muitas experiências da prática de mindfulness em ambientes escolares, e vários estudos já constatam os resultados positivos dessa introdução.

Benefícios para professores

No ambiente escolar, é interessante que os professores tenham familiaridade com a técnica de mindfulness para que possam transmiti-la aos alunos. Aliás, existem dados mostrando que professores que meditam conseguem mudanças no comportamento dos alunos mesmo que estes não estejam envolvidos nas práticas de atenção plena. O que acontece é que os professores ganham habilidades interiores como autoconhecimento e alívio do estresse e transmitem aos alunos calma e atenção compassiva, criando uma atmosfera de aceitação, cuidado e encorajamento.

Sabe-se que a atividade profissional dos professores é uma das mais sujeitas a altos níveis de estresse, o que faz com que, frequentemente, eles sejam levados ao esgotamento (burnout). A prática de mindfulness pode ajudá-los na redução desse estresse, na melhoria do equilíbrio emocional e das relações interpessoais, além de contribuir para a sensação de bem-estar. Tudo isso, é claro, conduz ao aprimoramento do ambiente escolar.

Quanto à prática de atenção plena com as crianças, já existem muitas atividades especiais que levam em conta as diferentes faixas etárias. Assim, são contempladas as diferentes fases do desenvolvimento e não se exige, por exemplo, que as mais jovens tenham de permanecer imóveis ou concentrar-se na respiração por longo tempo, o que, naturalmente, é difícil para elas. O importante é fazer com elas aprendam a dirigir sua atenção e a ignorar distrações. Que aprendam a observar o próprio corpo, suas sensações e emoções e sejam capazes de lidar com elas com clareza e objetividade. Devem aprender a ser pacientes e generosas, a saber viver em grupo, em equilíbrio com outras pessoas e com o ambiente.

É comum pedirmos aos estudantes que prestem atenção, mas usualmente não se ensina a eles como fazer isso. Assim como não se ensina a controlar os impulsos, ou a empatia e gentileza para com os outros. A escola já tem uma grande carga com o conteúdo curricular e não sobra muito tempo para observar aspectos importantes, como o emocional ou o social, que são indispensáveis para o verdadeiro crescimento dos alunos. Integrar a atenção plena ao processo educacional pode contribuir para o desenvolvimento desses aspectos, e o que se observa como resultado é um melhor desempenho escolar, menor impulsividade, maior sensação de bem-estar e eficiência nas funções executivas. Contudo, é importante evitar que a prática de meditação seja outra atividade compulsória a que os estudantes são obrigados a se submeter, pois isso, além de contraproducente, seria contrário à própria essência da prática.

Meditar é uma habilidade muito simples, mas que não é tão fácil como parece à primeira vista, pois não acontece de repente: exige disciplina e regularidade. É como aprender a nadar ou a tocar um instrumento musical, o que demanda exercício dedicado e constante. Jon Kabat Zin, iniciador de programas de mindfulness nos Estados Unidos, sustenta que meditação de atenção plena não é uma técnica, mas uma maneira de existir. Uma maneira de ser que em essência busca estar em sintonia com a própria experiência do momento presente, com clareza, aceitação e serenidade. É algo de que necessitamos no mundo conturbado em que vivemos e que merece ser levado às novas gerações.

Fonte: http://www.revistaeducacao.com.br/pratica-de-mindfulness-no-ambiente-escolar-pode-trazer-beneficios-a-alunos-e-professores/
Acesso: 04 fev. 2018.

ENSINO MÉDIO PERDE ALUNOS E ACUMULA 1,5 MILHÃO DE JOVENS FORA DA ESCOLA

Alunos da escola estadual Alexandre von Humbolt, de SP, durante a aula de educação artística

As matrículas do ensino médio tiveram queda em 2017, no momento em que se esperava um movimento contrário, de inclusão, já que há cerca de 1,5 milhão de jovens de 15 a 17 anos fora da escola. Essa etapa de ensino é considerada um dos principais gargalos da educação básica. 

Dados do Censo da Educação Básica de 2017, divulgadas pelo MEC (Ministério da Educação) nesta quarta-feira (31), mostram que o país tem 48,6 milhões de alunos. Eles estão matriculados em 184,1 mil escolas (83% são públicas), da educação infantil ao ensino médio. 

O total de matrículas vem caindo ao longo dos anos. A queda é impulsionada, sobretudo, por dois movimentos: a melhora no fluxo escolar (com taxas mais positivas de aprovação) e uma redução no número de crianças no país. A despeito do quadro geral, ainda são altos os índices de reprovação e abandono nos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e no ensino médio. 

O país registrou 7.930.384 alunos no ensino médio em 2017. O número representa uma queda de 2,5% com relação às matrículas do ano passado. Do total desses alunos, 84,8% estão em escolas estaduais. 

"A matrícula do ensino médio segue a tendência de queda observada nos últimos anos que se deve tanto a uma redução da entrada proveniente do ensino fundamental quanto à melhoria no fluxo no ensino médio", ressaltou o MEC na divulgação dos dados. Entre 2013 e 2017, enquanto as matrículas do 9º ano tiveram queda de 14,2%, a taxa de aprovação do ensino médio subiu 2,8 pontos percentuais. 




A estagnação das matrículas no médio indica, também, que o país não tem conseguido incluir os cerca de 1,5 milhão de jovens que abandonaram as salas de aula antes de terminar a educação básica. Esse contingente equivale a 15% do total de jovens de 15 a 17 anos, faixa etária ideal para o nível médio

Estudo recente coordenado pelo economista Ricardo Paes de Barros mostra que, mantido o ritmo de expansão da escolaridade dos últimos 15 anos, o país levaria 200 anos para universalizar o atendimento

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Por outro lado, o ensino médio em tempo integral teve alta. O volume de matrículas nessa modalidade representou 8,4% do total de alunos em 2017. Eram 6,7% no ano anterior. A modalidade é uma das apostas do governo Michel Temer para alavancar a qualidade da etapa, mas há estudos que indicam que o acesso é desigual –as escolas com maior carga horária atendem aos alunos com melhor situação socioeconômica. 

Já as matrículas de ensino médio integrado ao ensino profissional, outra aposta do governo para a etapa, ficaram praticamente estagnadas. Se em 2017 elas eram 6,54% do total de alunos, em 2017 esse índice passou a 6,99% –o que significa 554.319 alunos. A educação profissional é uma das linhas de aprofundamento previstas com a reforma do ensino médio realizada pela equipe de Temer. 

EDUCAÇÃO INFANTIL

O número de alunos em creche (0 a 3 anos) cresceu, chegando a 3.406.796 alunos. É 5% superior ao ano passado. Na pré-escola (4 e 5 anos), o avanço foi mais tímido, de 1,2% no período, totalizando 5.101.935 alunos. 

O Brasil tem a meta, prevista no PNE (Plano Nacional de Educação), de matricular ao menos 50% das crianças de 0 a 3 anos em creche até 2024. Todas as crianças na idade de pré-escola deveriam estar na escola desde 2016, segundo o PNE e emenda constitucional aprovada em 2009. Em todo o país, o atendimento na creche é de 30,4% e na pré-escola, de 90,5%, segundo o Observatório do PNE, do Movimento Todos Pela Educação. 

A qualidade desse atendimento também é deficiente. Um terço dos professores que atuam na educação infantil não tem diploma de ensino superior. No ensino médio esse índice é de 6,5% e no fundamental, de 14,7%. 

O país tinha 27.348.080 alunos no ensino fundamental em 2017. São 1,8 milhão de alunos a menos do que em 2013, tendência explicada pela melhoria do fluxo e redução no número de crianças. 

As redes municipais concentram a maioria dos alunos do fundamental. Condições de precariedade persistem, segundo o Censo da Educação Básica. Pouco mais de 6% das escolas não possuem sistema de esgoto sanitário, mais da metade não dispõe de laboratório de informática e 46% não têm sala de leitura ou biblioteca.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/01/1954625-ensino-medio-perde-alunos-apesar-de-pais-ter-15-mi-de-jovens-fora-da-escola.shtml
Acesso: 31 jan. 2018.

“LIBERDADE DE ENSINAR É CONDIÇÃO PARA MELHORAR NOSSO DEBATE DEMOCRÁTICO”


Escola Sem Partido

Amanda Travincas, autora de tese premiada sobre a liberdade acadêmica, critica o "escola sem partido".

“Garantir sala de aula livre não é limitar a expressão do professor, mas fazê-la coexistir com a do aluno”

Nos últimos anos, iniciativas inspiradas no projeto Escola Sem Partido, cujo objetivo é "eliminar a doutrinação ideológica nas escolas", tem surgido em vários Estados e municípios brasileiros. Alagoas foi o primeiro a aprovar uma lei do tipo, já em 2015, para instituir o programa Escola Livre, posteriormente suspenso pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ele proibia qualquer conduta por parte do corpo docente ou da administração escolar que "imponha ou induza aos alunos opiniões político-partidárias, religiosa ou filosófica". O município de São Paulo, por sua vez, está com um projeto pronto para ser votado na Câmara, que também afirma que o professor da rede pública municipal deverá se abster de "introduzir, em disciplina obrigatória, conteúdos que possam estar em conflito com as convicções morais dos estudantes ou de seus pais".

A aprovação deste tipo de legislação é danosa para a democracia, na opinião da professora de direito Amanda Costa Thomé Travincas, autora da tese de doutorado "A tutela jurídica da liberdade acadêmica no Brasil: a liberdade de ensinar e seus limites", defendida na PUC do Rio Grande do Sul e vencedora no final do ano passado do Grande Prêmio Capes de Tese, que contempla as melhores pesquisas de doutorado no país. Em seu trabalho, focado no ensino superior, ela discute os motivos da existência da liberdade de ensinar ser garantida aos professores e qual o limite de atuação do professor na sala de aula.

Pergunta. No que consiste a liberdade de ensinar?

Resposta. Liberdade de ensinar é um direito que está relacionado a uma outra liberdade mais ampla, que é a liberdade acadêmica ou de cátedra. Está relacionada à autonomia do professor de gerir a sala de aula, ou seja, de deliberar sobre o conteúdo que vai ensinar e sobre os métodos que utilizará para abordagem deste conteúdo. Quando o professor é contratado por uma instituição, ele recebe um programa de ensino que está afinado a um projeto pedagógico institucional e tem a incumbência de exercer a sua profissão. Mas esse ato de contratação não é, ao mesmo tempo, um ato de renúncia de sua autonomia enquanto sujeito crítico a respeito de assuntos diversos. No momento em que um professor se torna um funcionário institucional, ele tem a incumbência de discutir opiniões controvertidas na sala de aula, de utilizar metodologia para isso, mas continua tendo suas opções políticas, religiosas, de cunho econômico etc. Na sala de aula, ele exprime determinada opinião sobre determinado assunto porque tem um dever profissional de fazer isso, é contratado e pago para isso. É diferente da gente que, em qualquer circunstância, expressarmos nossa opinião sobre qualquer assunto. Além disso, ela é um direito fundamental.

P. Como assim?

R. Na Constituição há um conjunto de normas que prevê os chamados direitos fundamentais. Mas a liberdade de ensinar não está prevista neles. Por isso me empenhei na tese em explicar que ela é um direito fundamental apesar de a Assembleia Constituinte não tê-la posto dentro deste grupo. Argumento isso relacionando a liberdade de ensinar ao principio democrático, que é o princípio central da nossa Constituição. Entendo que a liberdade de ensinar merece uma proteção diferenciada porque é uma condição para qualificar o nosso debate democrático. Ou seja, se alunos e professores convivem em instituições de ensino, em um ambiente de liberdade, em que o aluno escuta não só posições que corroborem com a sua, mas também posições diversas, isso otimiza a formação de cidadãos para a participação democrática.

P. E por que o professor deve emitir sua posição na sala?

R. Porque é uma condição para a qualificação do debate democrático. A apresentação de posições e a contraposição delas conflagra a sala de aula como um espaço democrático. Uma democracia não equivale a um conjunto de consensos. Ela é representada pela coexistência entre posições distintas, ou seja, pelo dissenso. O dissenso é uma condição da democracia. Se um professor exprime sua posição e ela é posta em xeque, pode ser contraditada, não só concretizamos o princípio da democracia como também contribuímos para o próprio avanço da ciência, que só se dá por contraposição. O avanço da ciência depende de questionamentos a posições consolidadas.

P. Qual a diferença entre o professor emitir uma opinião e doutrinar?

R. Doutrinação e ensino são coisas dicotômicas. Ou se doutrina ou se ensina. Nenhuma expressão é por si só doutrinação ou ensino. O que caracteriza algo como doutrinação e não ensino é a manifestação de um sujeito somada à impossibilidade de contraposição por parte de outro. Acontece quando o professor exprime uma posição e impede o aluno de questioná-lo, de considerar modelos alternativos. Já o ensino acontece quando o professor emite uma posição, e não só pode, como deve fazê-lo, mas reconhece a sala de aula como uma arena propícia pra discutir aquela posição que ele apresentou.

P. Como você avalia o movimento Escola Sem Partido?

R. O projeto parte de uma premissa equivocada, que é a possibilidade de filtrar o discurso do professor como se ele fosse apenas um instrumento de repasse do programa disciplinar. E isso compromete fortemente a sua condição de sujeito. Não é possível neutralizar até o marco zero o discurso de qualquer pessoa que seja. E não poderia ser diferente em relação ao professor. O professor embora tenha um compromisso institucional e público no exercício da sua profissão, não deixa de ser uma coisa que é prévia a sua condição de professor, que a condição de cidadão, de um sujeito. Qualquer sujeito que emite uma expressão, a emite a partir de seu local de fala, das suas experiências, das suas preferências. Por isso, a estratégia do Escola Sem partido é equivocada. Para garantir uma sala de aula livre o caminho não é limitar a paleta de expressões que pode ser proferida pelos professores. A estratégia é fazer coexistir a expressão do professor com a expressão do aluno. Ou seja, reconhecer o aluno como um sujeito autônomo, não como uma tábula rasa que absolverá qualquer expressão emanada do professor. Este modelo de educação é um modelo absolutamente retrógrado. Este mesmo discurso, inclusive, já existia em 1933.

P. Como assim?

R. Esta justificativa do Escola Sem Partido, que é a de que o professor não pode afrontar as convicções pessoais de cada aluno e de seus pais, foi, curiosamente, o mesmo argumento usado por parlamentares constituintes em 1933, quando pela primeira vez uma Assembleia Constituinte discutiu liberdade de ensinar. A posição deste bloco não vingou e, pela primeira vez, em 1934, a liberdade de ensinar foi prevista em uma Constituição brasileira. A discussão foi vencida em um contexto de consolidação de um Estado democrático muito mais precário do que o que a gente tem hoje. Hoje nossa democracia é considerada jovem, mas temos conquistas democráticas bem grandes. É curioso que isso venha a pauta novamente.

P. Quais as consequências que você imagina que a aprovação destas legislações possam ter na sala de aula?

R. Acho que as salas de aula serão espaços de absoluto temor. Para que de alguma forma a proposta do Escola Sem Partido seja efetiva seria preciso pensar em instrumentos de fiscalização dos professores. De sorte que não só se reparasse judicialmente alunos que se sentissem ofendidos pela manifestação de professores como também se prevenisse a ocorrência destas manifestações. A sala de aula teria que ser vigiada, como foram vigiadas as salas das instituições de ensino superior nos anos 60 e 70 no Brasil. É uma neoditadura que faria com que nós professores tenhamos que medir as nossas palavras quando lecionamos algo. A probabilidade de proliferações de demandas judiciais seria imensa. Porque quando eu manifesto uma posição em sala de aula eu não sei o que vai ofender o aluno. Se uma lei diz que eu não posso ferir a convicção do meu aluno, em uma sala de aula em que eu tenho pelo menos 50 alunos com convicções completamente diferentes entre si, a probabilidade de ofender alguém é altíssima.

P. Mesmo se o professor fosse um robozinho que lesse tudo exatamente como está nos livros e seguisse à risca o currículo?

R. Claro. Porque inclusive os próprios livros e os currículos imprimem posições subjetivas de alguém. Tanto é que há uma eterna guerra sobre os livros de história do ensino fundamental, todo o argumento de que são livros feitos por esquerdistas. Então, agora o alvo são os professores, depois os livros e depois, talvez, o Ministério da Educação, que é quem decide as diretrizes curriculares mínimas. Porque é claro que esta decisão também imprime posições subjetivas.

P. Há limites e restrições à liberdade de ensinar que sejam legítimos?

R. Uma coisa importante a deixar claro é que liberdade não equivalente à anomia, ou seja, não é o mesmo que a ausência de regras. Poder exercer uma liberdade, como a liberdade acadêmica, não quer dizer que nós professores não estejamos submetidos a determinadas regras. São estas regras que impõem limites à liberdade de ensinar. Por exemplo: eu sou professora do curso de direito, recebo uma ementa e programa da disciplina que leciono e não posso optar por não lecionar este programa e lecionar outro. Ou excluir conteúdos dela. Este é um limite legitimo à liberdade de ensinar.

P. Há casos em que isso acontece?

R. Não conheço casos que vieram a público. Mas estando em sala a gente vê que isso é muito comum, quase corriqueiro. Compreender que uma determinada abordagem não é a melhor e excluí-la. Por exemplo: o professor de direito excluir conteúdos sobre Marx porque tem uma filiação partidária distinta.

P. Temos visto muitos casos de conflitos em ambientes acadêmicos recentemente. A situação está piorando ou há mais publicidade sobre o tema?

R. Não conseguiria afirmar que a situação está piorando. Eu penso que os casos estão vindo mais à tona e o nosso momento político, econômico e institucional fomenta a ocorrência desses tipos de caso. Nestes momentos de crise é que as posições se firmam e as contraposições também. Isso não é diferente na universidade, que é um espaço onde discussões desta natureza acontecem. O momento é propício para o exercício da liberdade e, por isso, também um momento em que a tendência a violações a essa liberdade é maior. Comparativamente, os debates sobre a liberdade acadêmica nos Estados Unidos, onde esta discussão é bem mais antiga do que no Brasil, aumentaram especialmente após o 11 de setembro. Havia uma crise ali também sobre segurança nacional, terrorismo, religião etc. e isso exacerbou também a discussão sobre a liberdade acadêmica no país. Penso que nestes momentos de crise elas são propícias e isso ficou mais evidente no Brasil agora porque as circunstâncias externas à universidade favorecem isso.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/05/politica/1515162915_230395.html
Acesso: 30 jan. 2018.

 

CHILE APROVA UNIVERSIDADE GRATUITA E UNIVERSAL. “NÃO DEVERIA ESTAR NAS MÃOS DO MERCADO”

UN Photo/Paulo Filgueiras

O governo chileno decidiu aprovar uma reforma do ensino superior que põe fim às universidades privadas e adota um modelo de ensino superior gratuito e universal.

O Congresso chileno aprovou esta semana uma reforma que vinha sendo debatida pelos parlamentares do país desde o início do segundo governo de Michelle Bachelet, em 2014. A promessa de gratuidade universal do ensino superior era a principal promessa da chefe do executivo chileno.

Além da gratuidade universal, a reforma chilena cria ferramentas para avaliação do ensino superior que possam garantir a qualidade. O Ministério da Educação do Chile divulgou informações de que nos últimos 4 anos o governo conseguiu aprovar um total de 29 leis sobre educação.

A votação se encerrou na quarta-feira (24), e apontou 102 votos a favor e duas abstenções. A aprovação na Câmara dos Deputados é a etapa final para que a lei seja aprovada.

Segundo informa a Carta Educação, Paula Narváez, porta-voz do governo, teria afirmado que a lei "dá tranquilidade aos jovens para que seus talentos, suas capacidades, sua inteligência possam se desenvolver em um Estado que lhes dá oportunidades".

A presidente do país, Michelle Bachelet, comemorou a aprovação no Twitter, lembrando que acredita que sua lei de Universidades Estatais "fortalece uma gestão institucional, devolve ao Estado seu papel de protagonismo para assegurar uma educação superior pública de qualidade".

A reforma é uma resposta a um projeto da ditadura de Augusto Pinochet, considerada a ditadura mais sangrenta da América Latina. Entre 1980 e 1990, uma série de privatizações foram realizadas no país.
A ditadura militar chilena retirou do Estado a responsabilidade de oferecer direitos sociais como a educação, e abriu espaço para um ensino privado. Sem regulamentação, as mensalidades de ensino dispararam nos anos 1990.

Até então, o governo financiava escolas privadas e as universidades públicas eram pagas. Dessa forma, estudantes utilizavam financiamentos de bancos privados para que pudessem estudar e iniciavam a vida adulta com dívidas.

Em 2006, esse formato da educação gerou os maiores protestos da história do país desde a ditadura, o que ficou conhecido como "revolta dos pinguins". Os "Pinguins", como ficaram conhecidos os estudantes secundaristas chilenos devido ao uniformes com terno e gravata, foram às ruas e ocuparam escolas em todo o pais reivindicando gratuidade do ensino e também do transporte. Em 2011, outra onda de protestos de estudantes universitários também exigia mudanças no modelo.

"Ao avançar com a gratuidade na educação superior, queremos construir um país mais igualitário, com igualdade de oportunidades. Com a aprovação no Congresso, consagramos como lei um direito social que nunca deveria estar nas mãos do mercado!", afirmou a presidente no Twitter.

Bachelet preside o país desde 2014. Ela pertence ao Partido Socialista do Chile, e já foi presidente do país entre 2006 e 2010. Ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa na América Latina e a primeira mulher a se eleger para a presidência do Chile.

Fonte: https://www.brasil247.com/pt/247/mundo/339154/Chile-aprova-universidade-gratuita-e-universal-%E2%80%9CN%C3%A3o-deveria-estar-nas-m%C3%A3os-do-mercado%E2%80%9D.htm
Acesso: 28 jan. 2018.

CERCO AO "COPIA E COLA"






por Tania Pescarini


“Uma vez, recebi um trabalho muito bem feito de um estudante. Continha citações em três idiomas. O interessante é que aquele aluno havia feito o trabalho justamente porque estava com nota baixa em minha disciplina”, conta a professora Pollyana Nostargiacomo Mustaro, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em tecnologia educacional e professora da Faculdade de Computação e Informática (FCI) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Quando chamei o aluno para que explicasse o conteúdo, ficou óbvio que ele não sabia nada. Por fim, acabou revelando que havia comprado o trabalho.”

O mercado negro de compra e venda de trabalhos acadêmicos impõe desafios no mundo todo. Universidades de renome e até mesmo figuras públicas já tiveram seus nomes ligados a essa prática.  A compra de teses, dissertações e monografias é outra faceta de um velho conhecido na academia: o plágio. Não se escreve uma tese de doutorado em um mês ou uma monografia em uma semana. Os trabalhos vendidos são, segundo Pollyana, quase sempre colagens, ou seja, plágio de outros trabalhos disponíveis nos bancos de dados de grandes universidades.  Em outros casos, os próprios alunos plagiam os textos, muitas vezes copiando trechos extensos de autores muito mais experientes, o que torna a fraude mais fácil de ser identificada.

Hoje, há uma grande variedade de ferramentas, pagas e gratuitas, que prometem ajudar professores e editores a identificar o plágio. O conceito central é a comparação de textos: a partir de buscas em bases de dados, é possível apontar o grau de similaridade entre o texto inserido na ferramenta e trechos de outros autores. A principal diferença entre os softwares pagos e os gratuitos está na base de dados que eles alcançam: enquanto a maioria dos sistemas gratuitos efetua uma varredura somente em textos abertos na internet, ferramentas pagas podem acessar conteúdo protegido por leis de direitos autorais, como artigos fechados de revistas internacionais.

Banco de conteúdos

O alcance dos sistemas impressiona pelos números: a ferramenta paga iThenticate, por exemplo, possui uma base de 44 milhões de artigos, livros e conferências, 98 milhões de periódicos, revistas, enciclopédias e resumos e 56 bilhões de páginas na internet. Já o Turnitin, que também é pago, possui em sua base de dados 510 milhões de trabalhos de alunos (os textos submetidos pelas diferentes instituições servem também para compor o banco de documentos), além de 57 bilhões de páginas da internet.

“Essa base de dados é diferente daquela de outros sistemas porque não comparamos apenas ao conteúdo web vivo, aquele que está no ar no momento, mas também indexamos as páginas no repositório. Isso quer dizer que, se um aluno copiar de um site como a Wikipedia, cujo conteúdo muda frequentemente, ainda conseguimos comparar com a versão original, mesmo que a página não exista mais on-line”, comenta Alice Lupton, representante da Turnitin no Brasil. Segundo ela, a ferramenta é usada em 140 países e consegue detectar trechos traduzidos. “Se um estudante traduzir um texto do inglês para o português e entregar como trabalho próprio, a ferramenta é capaz de identificar a fonte original.” Além disso, a plataforma inclui uma funcionalidade que consegue separar citações do restante do texto.

A USP está estudando adquirir para seus periódicos científicos uma dessas ferramentas pagas. Segundo o coordenador do portal de revistas da universidade, André Ferradas, a aquisição faz parte de um esforço da universidade para internacionalizar suas revistas acadêmicas. “Queremos captar autores que publiquem em língua inglesa, além de divulgar artigos de autores brasileiros em inglês”, afirma Ferradas.

O ideal, para uma instituição que publica um periódico internacional, é ter acesso às ferramentas pagas, pois a maioria das revistas científicas internacionais tem conteúdo pago e protegido. As revistas com conteúdo restrito costumam ser consideradas referência de qualidade acadêmica. Para ter acesso ao conteúdo dessas publicações, os sistemas de varredura devem ter autorização, que costuma ser fornecida por meio de acordos comerciais entre as ferramentas e as empresas que publicam artigos e trabalhos científicos.

Para Pollyana Mustaro, a ferramenta mais adequada é aquela que atende às demandas de cada IES. Uma opção é utilizar ferramentas digitais de aprendizagem que tragam, acoplada, alguma ferramenta de aferição de similaridade de textos. É o caso da plataforma Blackboard, utilizada pela Universidade Anhembi Morumbi, e do Moodle, ambiente digital usado pelo Mackenzie. A plataforma Brightspace, da D2L, permite ao professor trabalhar em conjunto com o Turnitin.

Em algumas ferramentas públicas e gratuitas é possível colar trechos de trabalhos para verificação ou realizar o upload de documentos inteiros. Uma delas é o eTBLAST (http://etest.vbi.vt.edu/etblast3/), que faz uma varredura em alguns periódicos acadêmicos e sites. Em um teste realizado com um documento que reunia parágrafos copiados de artigos da Wikipedia, a plataforma identificou a reprodução de trechos em inglês, mas não em português.

Outra ferramenta gratuita, o Plagiarisma (http://plagiarisma.net/pt/), tem uma organização visual mais simples e acessa artigos em português indexados na Scielo. O site não lê conteúdos restritos. Em nossos testes, a ferramenta conseguiu detectar trechos copiados de um artigo em português na Wikipedia.

Decisão com cuidado

Alice Lupton, do Turnitin, pondera que, embora as ferramentas ajudem muito, apontar um trabalho como plágio cabe ao professor. “Quando uma correspondência é apresentada, trata-se de um indicador de texto não original, mas não significa necessariamente que seja plágio.” Ou seja, apesar de as ferramentas serem um avanço importante, apontar a ocorrência de plágio é tarefa humana. “Os sistemas agilizam a aferição de originalidade, mas não são a salvação da lavoura”, comenta André Ferradas.

Também é preciso considerar que essas ferramentas trabalham, principalmente, com similaridade de textos. Assim, para detectar com precisão o plágio de dados levantados por outras pesquisas, é preciso que a apresentação textual dessas informações siga o mesmo padrão no trabalho original e na “cópia”. “Acho melhor não chamar essas ferramentas de sistemas de verificação de plágio, mas de similaridade entre textos”, diz Ferradas.

Identificar o que é plágio e o que é citação legítima envolve o conhecimento de um conjunto de valores éticos. É um trabalho que precisa ser feito por um especialista na área de estudo. Para o professor que acompanha o desenvolvimento de cada um de seus alunos, essa tarefa é mais fácil. “Se o orientador é presente na vida de seu orientando, o plágio não acontece”, lembra Pollyana. Afinal, ele acompanhará a construção da dissertação de seus alunos etapa por etapa, ciente de suas referências.

Os alunos devem também, desde o início da graduação, ser introduzidos a noções de metodologia científica e ética. “Temos uma campanha para conscientizar os alunos sobre a importância da originalidade do conteúdo. Eles chegam à universidade achando que é inofensivo usar o Google para tudo, mas nós os alertamos que seus trabalhos serão submetidos a verificação”, comenta Cristiane Alperstedt, diretora de Qualidade e Regulação Acadêmica da Universidade Anhembi Morumbi.

Comprovação de identidade
Uma nova tecnologia promete ajudar instituições de ensino a garantir a identidade de alunos, tutores e monitores de ensino a distância. A solução, distribuída no Brasil pela empresa Global Minds nas plataformas de segurança Pluripass e Biotracker, é fruto de uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Victoria, no Canadá, e trabalha com o princípio de que cada pessoa tem um modo único de digitar no teclado. Esse padrão pessoal é difícil de imitar e, portanto, pode ser usado para identificar quem está realizando uma prova a distância, por exemplo. Marcelo Camelo, responsável por novos negócios na Global Minds e integrante da equipe que criou salas de provas virtuais na Universidade de Victoria usando a tecnologia, acredita que o software pode ser usado pelas mais diversas indústrias, da academia ao judiciário, passando pela polícia. “O roubo de identidade é o crime cibernético mais praticado no mundo”, lembra ele. “Essa tecnologia pode ser rodada junto com outros sistemas de segurança, como nomes de usuário e senhas”, acrescenta. A universidade que decidir contratar o serviço deve ter em mente que o sistema demanda uma coleta prévia: ele precisa aprender o comportamento de cada aluno ao usar o computador e registrar seu padrão de digitação.


Fonte: http://www.revistaeducacao.com.br/cerco-ao-copia-e-cola/
Acesso: 24 jan. 2018.

ADOLESCÊNCIA AGORA VAI ATÉ OS 24 ANOS DE IDADE, E NÃO SÓ ATÉ OS 19, DEFENDEM CIENTISTAS


Aquela fase odiada pela maioria das pessoas, a adolescência, ganhou uma sobrevida de cinco anos. Em vez de terminar aos 19, idade considerada na maioria dos países, um grupo de cientistas defende que a adolescência se estende dos 10 até os 24 anos.

O fato de jovens estarem optando por estudar por um período de tempo mais longo, não só até a faculdade, assim como a decisão cada vez mais frequente de adiar casamento e maternidade/paternidade, estariam mudando a percepção das pessoas de quando a vida adulta começa, dizem pesquisadores australianos em um artigo publicado nesta semana na revista científica Lancet Child & Adolescent Health.

Para eles, a redefinição da duração da adolescência seria essencial para assegurar que as leis que dizem respeito a esses jovens continuassem sendo asseguradas.

Outros especialistas, no entanto, dizem que postergar o fim da adolescência pode mais adiante infantilizar os jovens.

Puberdade

A duração da adolescência já chegou a ser alterada antes, quando se concluiu que, com os avanços da saúde e da nutrição, a puberdade iniciava antes do 14 anos, como se convencionava.

Essa fase tem início quando uma parte do cérebro, o hipotálamo, ativa as glândulas hipófise e gônadas, que, entre outras coisas, liberam hormônios sexuais.

Ela costumava acontecer por volta dos 14 anos, mas caiu gradualmente no mundo desenvolvido nas últimas décadas até o patamar de 10 anos.

Como consequência, em países industrializados como o Reino Unido a idade média para a primeira menstruação de uma garota caiu quatro anos nos últimos 150 anos.

Metade das mulheres agora fica menstruada pela primeira vez entre 12 e 13 anos.

A biologia também é usada como argumento por aqueles que defendem que a adolescência termina mais tarde - e que dizem, por exemplo, que o corpo continua a se desenvolver.

O cérebro continua se desenvolvendo depois dos 20 anos, trabalhando de maneira mais rápida e eficiente. E para muitos os dentes do siso não nascem até que complete 25 anos.

Entre os argumentos biológicos para ampliar a duração da adolescência está o de que o corpo continua se desenvolvendo após os 20 anos.

Adiando planos familiares

Os mais jovens também estão adiando o casamento e a maternidade/paternidade.

De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas do Reino Unidos, a idade média para o primeiro casamento de um homem era 32,5 anos em 2013 e de 30,6 para as mulheres na Inglaterra e no País de Gales. Isso significa um aumento de 8 anos desde 1973.

No artigo que explica os motivos para o aumento da duração da adolescência, Susan Sawyer, diretora do Centro para a Saúde do Adolescente do Hospital Royal Children's em Melbourne, na Austrália, escreve: "Apesar de muitos privilégios legais da vida adulta começarem aos 18 anos, a adoção das responsabilidades e do papel de adulto geralmente acontece mais tarde".

Ela diz que postergar o casamento, o momento de ter filhos e a independência financeira significa "semidependência", o que caracteriza que a adolescência foi estendida.

No Brasil, a permanência por cada vez mais tempo dos jovens na casa dos pais é uma marca da chamada "geração canguru", nome dado pelo IBGE em 2013 ao fenômeno que engloba pessoas de 25 a 34 anos e que vem crescendo no país. Os dados foram divulgados na Síntese de Indicadores Sociais - Uma análise das condições de vida da população brasileira, com dados referetes ao intervalo entre 2002 e 2012.

Mudança nas leis

Essa mudança, pondera Sawyer, precisa ser levada em consideração pelos políticos, para que as leis e benefícios voltados a esse público sejam alterados.

"Definições de idade são sempre arbitrárias, mas nossa atual definição de adolescência está excessivamente restrita", diz a cientista.

Russell Viner, presidente da associação Royal College de pediatria e saúde infantil, diz que no Reino Unido a idade média para um jovem sair de casa é 25 anos. Ele apoia a ideia de que a adolescência seja estendida até os 24 anos e diz que os serviços no Reino Unido já levam isso em conta.

Segundo ele, hoje as leis no Reino Unido consideram a idade de até 24 anos para o governo garantir a provisão de serviços para crianças e adolescentes que precisam de atendimento especial (seja por abandono ou outro motivo) e que têm necessidades especiais em termos educacionais.

Infantilizar os adultos

A socióloga da Universidade de Kent Jan Macvarish, que estuda paternidade, diz que há um perigo em estender o conceito de adolescência.

"Crianças mais velhas e jovens são moldados de maneira mais significativa pelas expectativas da sociedade sobre eles com o seu intrínseco crescimento biológico", ela diz.

"Não há nada necessariamente infantil em passar o início dos seus 20 anos no ensino superior ou tendo experiências no mundo do trabalho." E não deveríamos arriscar transformar o desejo deles por independência em uma patologia. "A sociedade deveria manter as expectativas mais altas em relação à geração seguinte", diz Macvarish.

Viner discorda dela e diz que ampliar a adolescência pode ser visto como dar poder aos jovens ao reconhecer as diferenças deles.

"Contanto que isso seja feito de uma posição de reconhecimento dos pontos fortes dos jovens e do potencial do desenvolvimento deles em vez de focar os problemas da adolescência."

*Com reportagem de Katie Silver, da BBC News.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/geral-42747453
Acesso: 22 jan. 2018.

EDUCAÇÃO DO FUTURO SERÁ PERSONALIZADA E HÍBRIDA

 Colégio Estadual Chico Anísio, em Andaraí, zona norte do Rio, é referência em aplicação de competências socioeconômicas (habilidade de tomar decisões, trabalhar em equipe, etc) nos currículos da escola. Na foto, o Diretor do colégio, Wilman Costa(C), e as alunas Isabel Pacheco(E) e Anna Beatriz Oliveira (D), do segundo ano do Ensino Médio. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão

Pesquisa da Fundação Catar mostra que até 2030 as escolas vão focar nas demandas dos alunos, e professores se tornarão tutores.

      Computadores e tablets estarão mais presentes na vida de professores e estudantes do que lousas e apostilas. Até 2030, a maior parte do ensino será personalizada, ou seja, vai acompanhar o ritmo e os interesses de cada aluno. Aulas online serão mais importantes do que as presenciais. Essas são apostas para a educação do futuro de 645 especialistas ouvidos por pesquisa do World Innovation Summit for Education (Wise), da Fundação Catar.
      O levantamento, que será lançado nesta semana e foi obtido com exclusividade pelo Estado, reuniu opiniões de experts de todos os continentes. No estudo, 93% dos pesquisadores apontam que a inovação - social, tecnológica e pedagógica - será a chave para o avanço educacional nos próximos anos, com mudanças estruturais significativas no papel do governo, da escola, dos professores e dos alunos. 
      Na educação do futuro, as escolas terão formatos híbridos, usando plataformas online e espaços físicos onde ocorram as interações sociais entre estudantes. O professor, nesse modelo, deixará de ser peça central na aprendizagem para se tornar o mediador do processo de aquisição de conhecimento, segundo 73% dos especialistas.
     A tecnologia será fundamental, mas apenas distribuir os aparelhos não basta, destaca o trabalho. 
       
     Para serem incorporados, os dispositivos deverão ter propósitos claros para melhorar o ensino. 
     No Brasil, experiências inovadoras de ensino, que enfocam a educação personalizada e o professor como tutor, já estão sendo aplicadas, tanto nas redes particulares quanto públicas. O problema, contudo, é reproduzir esses modelos - ainda pontuais - em larga escala, de acordo com especialistas ouvidos pelo Estado. Entre os desafios, estão a fragmentação das políticas educacionais, a falta de estrutura e a dificuldade para que os professores, na maioria formados na perspectiva mais tradicional, se adaptem às constantes transformações.
    Entre as previsões feitas pelo Wise, está a predominância, no futuro, das competências socioemocionais, que envolvem questões pessoais e interpessoais, como responsabilidade e estabilidade emocional, por exemplo. Segundo os especialistas, a intimidade com cálculos ou memorização de datas históricas dizem pouco sobre o aluno. 
     A maioria também não acredita que todos devam aprender os mesmos conteúdos ao mesmo tempo. 83% deles afirmam que o currículo terá parâmetros básicos, mas será moldado de acordo com o perfil e o ritmo de progressão de cada estudante.
      Além dos livros. Um dos exemplos brasileiros de foco nas competências socioemocionais é o Colégio Estadual Chico Anysio, no Rio de Janeiro. A unidade, inaugurada em 2013, faz parte de um projeto da Secretaria de Educação fluminense e o Instituto Ayrton Senna. A escola tem jornada integral no ensino médio, mas sem conteúdo profissionalizante. Os eixos da formação envolvem trabalho, convívio, aprendizagem e autonomia. 
      "Temos projetos de pesquisa, em que somos protagonistas", conta Anna Beatriz Figueiredo, de 17 anos, aluna do 2º ano do ensino médio do Chico Anysio. A jovem, que antes estudava em um colégio público convencional, percebe a diferença entre os modelos. "Antes, eu estava em uma condição passiva, sem muita voz", lembra.
      De acordo com Anna Beatriz, o trabalho com essas habilidades ajuda tanto nas disciplinas básicas quanto fora da escola. "Essa bagagem se reflete na forma como lidamos com as críticas e os desafios", diz ela, que está no colégio desde o ano passado. "Meus pais perceberam a diferença na minha postura".
    Willmann Costa, diretor da unidade, explica que o objetivo é interligar os conhecimentos e desfazer as barreiras entre professores e alunos. "É um modelo de currículo atrativo, mais próximo da juventude", destaca.
      Âncora. O modelo menos conteudista também é adotado no Projeto Âncora, que tem uma escola localizada em Cotia, na Grande São Paulo. Com turmas mistas, compostas por crianças e adolescentes de várias idades, a proposta da instituição é que os estudantes aprendam uns com os outros. 
      Na escola, o currículo não é engessado, mas formatado a partir do interesse dos estudantes. "Cada um aprende no seu ritmo. Não preciso aprender ao mesmo tempo que o meu colega", afirma a aluna Giulia Jacobete, de 14 anos.
     Fabio Zsigmond, educador e diretor do projeto explica que os alunos aprendem os conteúdos curriculares enquanto desenvolvem seus projetos. “O aluno se planeja para desenvolver o que ele tem interesse, como um livro, por exemplo. E a partir daí ele aprende os objetivos curriculares”, explica.  “Não é de forma cronológica, separado por disciplina e alunos por idade, mas de uma forma orgânica.”
      No Âncora, o professor é um mediador do caminho de aprendizagem do aluno. “Não é necessário ele ficar falando sobre um conhecimento que já está disponível nos livros ou na internet”, afirma Zsigmond. “É mais produtivo ele propiciar uma discussão e fazer uma reflexão.”

Fonte: http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,educacao-do-futuro-sera-personalizada-e-hibrida-imp-,1575897
Acesso em: 20 jan. 2018.